Se o jovem Davi soubesse... oh!, se ele pudesse saber...
Que a sua funda, armada com toscas pedras, está hoje nas mãos dos garotos palestinos...
que o Golias de agora, ironia das ironias, é um super-tanque blindado, sub-teleguiado por seus irmãos de sangue, hebreus, em uma inversão total e escandalosa dos papéis, na História da Terra Prometida.
Se Davi soubesse, do que se passa hoje em Canaã, silenciariam as cordas da sua harpa... já não seria curado o Rei Saul... e a Musicoterapia jamais se teria iniciado, para grande pesar da humanidade inteira.
Ah!... mas Davi também foi invasor, filho ou neto de invasor, e a Terra Prometida, onde jorrava leite e mel, era a terra dos cananeus, dos amonitas, dos jebusitas, dos moabitas, de tantos outros e também dos filisteus, a cujo povo Golias pertencia... mas não era dos hebreus. Mas, porém,
Jeová havia comandado – “entrem, tomem conta da terra, não deixem vivo nada que respire”!... As hordas de Josué, sucessor de Moisés, fizeram o possível sob as ordens do Deus cruel do Velho Testamento... tomaram conta dos seus pedaços, pintaram e bordaram, repartiram a Terra Sagrada entre as doze tribos de Jacob.
O próprio Davi, d’antes um simples escudeiro, viria a reinar por vastas áreas, unificando as porções centrífugas sob a sua coroa, no Reino Unido de Israel e Judá. Davi foi um grande rei, não há o que contestar, e para os verdadeiramente grandes até os maiores pecados encontram seu perdão – e perdão rima com Salomão, daí que o crime maior de Davi contra Urias, um de seus melhores generais, enviando-o à tormentosa batalha de Gileade a morrer em mãos inimigas, para abiscoitar de vez a viúva Betsabet, já então sua amante, não ofuscou a sua imagem poderosa, nem evitou ser ele o nome mais citado na Bíblia Sagrada, mais até que o de Moisés e o de Jesus. E Salomão, rebento sacrilego de Davi com Betsabet, passaria à posteridade como símbolo de justiça e sabedoria.
Mas, redivivo Davi, nos tempos hodiernos, relembrando ele a sua intimorata coragem frente ao gigante Golias de espadas armado, contendo o jovem hebreu apenas uma simples funda frente ao maioral dos filisteus,
que pensaria Davi dessa imagem invertida pelo tempo e pelas proezas da política internacional? Centenas ou milhares de Davis palestinos (árabes, muçulmanos, pós filisteus e pós cananitas), atiçam das fundas suas pedras, para a boca medonha dos canhões, a moderna cabeça dos Golias, que não se prostram com as pedradas. Antes, delas fazem chicanas, estilhaçando à sua frente homens, mulheres e crianças, num
festival de barbárie poucas vezes rivalizado na história da civilização. É o holocausto palestino. Os judeus, ao longo de três milênios, foram vítimas e heróis, bandidos e cruéis, invasores e expatriados, mais errantes que situados, condenados sem razão, redimidos pela própria força dos músculos e do intelecto, enlevados pelas grandes conquistas que emprestaram à ciência e ao humanismo, à civilidade e à filosofia, irônicamente molestados até na crucifixão do taumaturgo da Galiléia, no cimo da cruz... INRJ... Jesus Nazareno, Rei dos Judeus.
Mas os tempos são outros. Outro também é o palco contemporâneo das disputas. Alí está, hodiernamente, a velha Palestina, que não pode mais ser chamada Canaã. Os expatriados, judeus, voltaram. Os situados, nunca saíram... conquanto sejam hoje um turbilhão de múltiplas origens, próximas talvez entre si. E os muitos deuses, hoje são apenas dois, Yaveh e Allah, que certamente são um só apenas um, o Deus único dos judeus, o Deus único de Maomé. Mas a nacionalidade é dupla – para resumir a questão, israelitas (invasores, reinantes, expatriados e retornantes) e palestinos (ficantes, árabes, muçulmanos, chegantes). E para resolver a questão, duas pátrias, Israel, o velho Israel ressuscitado de Davi e Salomão, e a Palestina, ou que outro nome melhor a vierem denominá-la, em nome dos filisteus e jebusitas, amonitas, moabitas, cananeus e outros povos também deslocados outrora, mas que deixaram também suas sementes naquela terra.
O que três mil anos separaram e confundiram, somente a tolerância e o humanismo poderão reunir, conquanto semi-separado, em duas pátrias, duas nações. A esta altura da evolução histórica da humanidade, não se pode negar aos judeus o lar ancestral de Davi e Salomão, assim como não podem os palestinos privar-se da sua terra-mãe.
Os deuses, em verdade, são iguais, são tudo e não são nada, são benévolos ou são cruéis. Serão sempre deuses. As pátrias mudam – muitas já mudaram com o tempo... muitas acabaram... muitas ressuscitaram... Existem ainda, as que podem se firmar... ou reafirmar, embora, a rigor,
ao longo da História, nada houvesse feito maior mal à humanidade que as noções explícitas de patriotismo e divindades.Ernane N.A.Gusmão SSA,BA, 16/01/09
e-mail:enagursa@atarde.com.br
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Funda – Laçada de couro ou de corda para arrojar pedras, ou outros projetis, ao longe. [Sin., ant.: fundíbulo.]; atiradeira.
Hodierno – Relativo aos dias de hoje; atual.
Hebreu – Indivíduo dos hebreus, povo semita da Antiguidade, do qual descendem os atuais judeus (v. judeu); hebraico.
Cananeus – De, ou pertencente ou relativo à região histórica e bíblica de Canaã (Palestina).
Moabitas – Indivíduo dos moabitas, povo do antigo reino de Moabe (na atual Jordânia).
Filisteus – De, ou pertencente ou relativo aos filisteus, povo não semita estabelecido no litoral da Palestina desde o séc. XII a. C., e que, segundo a tradição bíblica, foi dominado pelo rei Daví.
Semita – Indivíduo dos semitas, família etnográfica e lingüística, originária da Ásia ocidental, e que compreende os hebreus, os assírios, os aramaicos, os fenícios, os árabes.
Redivivo – Que retornou à vida; ressuscitado.
Intimorata – Sem temor; destemido.