A corda [sempre] arrebenta do lado mais fraco.
Moradores das proximidades do local, onde caiu o avião da Bahia Táxi Aéreo, contendo mais de R$5 milhões, estão sofrendo as conseqüências da infeliz sorte. Não bastassem os supostos policiais que tiraram uma parte do dinheiro das mãos de alguns [conforme relatou um rapaz na TV], agora, temem a chegada de grupos armados em busca de uma “ponta”. Uma fazenda foi invadida e assaltada. Os bandidos levaram a televisão, jóias, o rádio e até uma espingarda, conforme matéria do A TARDE On-line, neste sábado.
O dinheirão motiva diversos debates nas rodas de amigos, no trabalho e na rua. O dialogo é mais ou menos assim.
– E aí, o que você faria se estivesse próximo ao local do acidente?
– Oxi, pegaria logo um bolinho daquele pra mim.
Ou então:
– Rapaz, você viu o bolão de dinheiro?
– e não vi não foi.
– Os caras estão devolvendo o que pegaram. Devem estar com medo de represálias.
– Que porra nenhuma, eles são é burros. Aaah eu lá, queria ver eu devolver. Entocava logo um bolo daqueles. Um bolo daqueles... um só meu deus.
Outras formas de relatar o assunto aparecem, mudam-se as palavras, permanece o teor. Ninguém sequer lembra das pessoas mortas no acidente. Talvez, apenas os familiares.
NO BUZÚ, SÁBADO À TARDE.
O ônibus é da empresa Dois de Julho. A linha: Terminal da França - Vila de Abrantes [número 047]. Sentido Abrantes, por volta das 17h.
Estava com a minha meninota. Íamos devolver uns filmes alugados no Shopping Estrada do Côco. Ela pediu para mudarmos para a cadeira alta, com braço. Antes de alcançarmos a cadeira, outra menina apressadamente sentou. Resolvi sentar no penúltimo banco, lá atrás. Acredito que o rapaz tinha descido a pouco, no primeiro ponto da Avenida Dorival Caymmi. Quando vi o dinheiro, junto com a ‘pata-pata’ [aquele pente para cabelo crespo], não havia como devolvê-lo. Devia ter mais de R$50, não contei. Uma nota de vinte, algumas de dez e uma de cinco. Senti um frio na barriga. Antes que qualquer pensamento maligno aparecesse em minha cabeça, levantei-me e entreguei tudo ao cobrador. [- Algum passageiro deixou cair isso aqui]. Troquei de lugar, sentei atrás do vidro, de frente para o lado da cadeira dele. Percebi quando ele – cabelos pretos e óculos arredondados – colocou o dinheiro na sacola.
Muitos vão me condenar por não ter ficado com a grana. No entanto, prefiro os poucos que entenderão minha atitude. Esse dinheiro não me deixaria mais rico, não pagaria minhas dívidas, não me traria felicidade. Já perdi dinheiro [muito mais do que tinha ali], sei como é ruim, doloroso, angustiante. Sei que não vou mudar o mundo [sou apenas um beija-flor apagando incêndios com gotículas de água], mas, não quero me render a ele. Não quero ser cúmplice desse mundo, dessa humanidade perdida, desse sistema escroto. Quero viver fazendo o bem. Quero ir melhorando a cada instante, corrigindo minhas imperfeições. Quero me livrar dessa materialidade doentia. Preciso da sua ajuda.
