
– Quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha?
– A idéia.
– A idéia? Que idéia é essa rapaz?
– A idéia de que é a idéia quem veio primeiro.
– A idéia de que é a... Porra cara, num dá pra complicar menos não?!
– Velho, antes do ovo ou da galinha existiu a idéia de ovo e a idéia de galinha.
– É?
– Sim. Para o idealismo a concepção das idéias precede a sua realização concreta.
– Idealismo?
– Isso meu velho. Primeiro vem a idéia, depois a concretização.
– Hummm... Concordo não.
– Não concorda? Você acha que essa roubalheira toda que tem por aí é um ato impensado?
– Não, não, não. É TUDO MUITO BEM PENSADO!!!
– Então?
– O que me incomoda é pensar em algo que nunca senti...
– Agora é você quem está complicando.
– Cara, lembra quando Saramago chamou nossa atenção para o fato de sabermos olhar?
– “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
– E aquele professor que nos mandava escutar os sons do mundo?
– Claro!!! Bob Pai, né?
– Isso. Agora lembre do que vou te dizer: Sinta.
– Tô escutando.
– Sinta!!!
– Tô vendo velho, tô escutando... fala logo.
– Ver e escutar não são suficientes, é necessário sentir...
– Ah?
– ...sentir com os sentidos. Olhar, escutar, pegar, cheirar e saborear. Cores, sons, texturas, aromas e gostos.
–Aaaaaaaaaaah, então...
– Já parou pra pensar que...
– Para poder materializar algo mentalmente é necessário sentir?
– ...dentre as coisas que conhecemos apenas uma minoria é fruto da nossa percepção sensória? Ou seja...
– ...tivemos a oportunidade de conhece-las com nossos sentidos...
– Perfeito! E a maioria delas... você tem alguma idéia?
– Idéia?
– Muito bem, acertou!!!
– Você quer dizer que a maioria das coisas que conhecemos derivam de idéias?
– Das idéias que fazemos das coisas.
– Porra velho, essa volta toda pra chegar no mesmo lugar?
– Pensei que tinha entendido?
– E não entendi?
– Acho que não. A idéia vem depois do sentido. Pois como posso ter alguma idéia sobre algo, sem nunca tê-lo percebido com meus órgãos do sentido?
A partir do momento que tenho uma única experiência sensória desenvolvo uma idéia preliminar sobre o objeto ou coisa.
– Humm, faz sentido. (será?)
– Claro que faz! É assim que percebemos o mundo. Ou melhor, assim deveria ser...
– Deveria?
– Sim. O que venho dizendo é que as coisas estão aí independentes de nós as percebermos. A idéia de algo surgiu após alguém ter percebido esse algo, ou seja, peguei, cheirei, escutei, falei (provei) ou olhei e desenvolvi minha idéia, a idéia de como percebo esse algo, essa coisa.
– E eu com isso?
– Com isso você aparece, doido, querendo conhecer esse algo, elaborar a sua idéia dessa coisa.
– Obviamente.
– Porém, eu tenho o privilégio de escolher como você vai perceber...
– Por quê? Você é dono dos meus sentidos?
– Não, mas posso, ao invés de deixar que você sinta, descrever a coisa para você. Aí, você irá construir uma idéia baseada na minha e não nos seus sentidos. Essa idéia preliminar formada por você será ajustada ao longo de novas experiências “ideísticas” até que você ajuste-a “definitivamente” quando puder senti-la com seus aparelhos sensoriais.
– Porra!!! Você bebeu o quê? Hahahahhaa, que viajem da porra!
– Pois é, bebi nada não. O mundo de hoje está assim, com muita gente conhecendo as coisas baseado nas idéias dos outros, que por sua vez ouviu a idéia de outro...
– ...e por aí vai, pouca gente sente...
–...é, pouca gente sente e por aí vai... contentando-se com a idéia formada, não buscando conhecer por si...
– ...desaprendendo a amar, desaprendendo a sentir
– desaprendendo a sorrir...
–– Vem cá, dá um abraço aqui...